36 anos a construir um Moçambique mais inclusivo
Uma instituição que nasceu de uma necessidade histórica
A história da Gapi começa onde começa a história do Moçambique contemporâneo: na difícil transição entre dois modelos de economia e entre décadas de conflito e a esperança de um futuro diferente.
Na segunda metade dos anos 1980, Moçambique vivia uma das conjunturas mais exigentes da sua história recente. Uma guerra civil devastadora consumia o país, a economia planificada mostrava os seus limites e a pressão internacional empurrava para reformas estruturais profundas. Nesse contexto, a privatização e reestruturação do parque industrial obsoleto e a criação de condições para o surgimento de um empresariado nacional capaz e competitivo tornaram-se prioridades inadiáveis.
Foi neste ambiente de mudança que, em 1985, o Governo de Moçambique e a Fundação Friedrich Ebert — parceiro alemão de longa data no apoio ao desenvolvimento — decidiram criar o Gabinete de Apoio e Consultoria a Pequenas Indústrias, a GAPI. A ideia era simples na forma, ambiciosa no propósito: criar uma estrutura capaz de apoiar as pequenas indústrias moçambicanas na transição para uma economia de mercado, combinando financiamento com conhecimento e assistência técnica genuína.
No dia 1 de Março de 1990, a Gapi formalizou-se como empresa nacional – Gapi, Lda – e iniciou oficialmente a sua actividade. O Banco Popular de Desenvolvimento (BPD) participou como cofundador representando o interesse público. Era uma data que marcava não apenas o nascimento de uma instituição, mas o início de uma metodologia: a convicção de que o crédito, por si só, não basta — que é necessário acompanhar, capacitar e caminhar ao lado de quem empreende.
Os primeiros anos: aprender a andar num país que se reinventava
Os anos 1990 foram de aprendizagem e afirmação. Moçambique avançava para a paz — os Acordos Gerais de Paz foram assinados em 1992 — e, com eles, surgia um país sedento de reconstrução económica e social. A Gapi cresceu nesse ambiente, apoiando pequenas e médias empresas em sectores fundamentais para a economia nacional, desenvolvendo as suas metodologias de capacitação, acompanhamento técnico e construindo a rede de presença local que viria a ser uma das suas marcas distintivas.
Em 1999, a transformação em sociedade anónima — Gapi, S.A. — reflectiu a maturidade institucional alcançada e abriu as portas a uma estrutura de governança mais robusta e à entrada de novos parceiros no capital social.
Uma década de marcos: da cajucultura aos caminhos de ferro
Os anos 2000 trouxeram alguns dos momentos mais significativos da história da Gapi — e três deles ficaram para sempre associados à sua capacidade de resposta em contextos de crise.
O relançamento da indústria do caju, em 2000, foi um projecto de grande envergadura. Trabalhando em conjunto com o Governo e com o Fundo Africano de Desenvolvimento, a Gapi ajudou a canalizar um recurso estratégico que permitiu revitalizar uma das mais importantes cadeias de valor da economia moçambicana, gerando emprego e rendimento para milhares de famílias rurais.
Nesse mesmo ano, as cheias devastadoras de 2000 — que afectaram milhões de moçambicanos — puseram à prova a capacidade de resposta da Gapi. Através da gestão de uma linha de crédito específica para apoiar a recuperação económica, a instituição chegou onde era mais necessária, financiando o recomeço de pequenos negócios e explorações agrícolas nas zonas afectadas.
Entre 2002 e 2004, a Gapi liderou aquele que viria a ser considerado por avaliadores do Banco Mundial um dos mais bem-sucedidos processos de reinserção socioprofissional em toda a África: o apoio à reinserção de cerca de 12.000 trabalhadores dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), afectados pela reestruturação desta empresa pública. Com financiamento mobilizado junto do Banco Mundial, a Gapi acompanhou estes trabalhadores na sua transição para o mercado de trabalho e para o empreendedorismo, alcançando níveis de sucesso que se tornaram referência continental.
2007: a Gapi como Instituição Financeira de Desenvolvimento
Em 2007, a Gapi deu um passo decisivo na sua consolidação institucional: foi registada no Banco de Moçambique na categoria de Sociedade de Investimentos — Gapi-SI, S.A. — assumindo-se como Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD) num novo enquadramento legal. Este estatuto conferiu à Gapi um posicionamento único no sistema financeiro moçambicano: nem banco comercial, nem departamento governamental, nem ONG, mas uma entidade com mandato específico de desenvolvimento, com metodologia própria e vocação para chegar onde a banca convencional não chega.
Uma estrutura acionista ao serviço da missão
Ao longo dos seus 36 anos, a estrutura acionista da Gapi foi-se adaptando à evolução do país e da instituição. Com a privatização do Banco Popular de Desenvolvimento e as mudanças no enquadramento financeiro nacional, a Gapi foi construindo uma base de investidores que partilham a sua visão de desenvolvimento inclusivo.
Hoje, a Gapi tem uma estrutura maioritariamente privada, reunindo entidades como a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), a Fundação para o Desenvolvimento das Comunidades (FDC), a Cruz Vermelha de Moçambique, a GapiGest (um grupo de investidores privados), bem como gestores e trabalhadores da instituição, organizados como GTTs numa empresa própria Amutzi,sa. O Estado está presente numa posição minoritária mas, na base de um acordo entre acionistas, comprometido em reforçar o seu investimento que assegure a Gapi como entidade de interesse público. Esta configuração acionista é prova de que o sector privado moçambicano acredita no modelo da Gapi — e comprova que a colaboração entre actores com origens diversas pode gerar impacto mais inclusivo e duradouro.
Como sublinhou o Dr. Lourenço do Rosário, em representação dos investidores privados, no 35.º aniversário da Gapi: “A Gapi é uma prova viva de como a colaboração entre o sector público e privado pode gerar frutos duradouros para o país.”
36 anos e uma nova geração de programas
O período 2020-2025 consolida a Gapi como a principal Instituição Financeira de Desenvolvimento de Moçambique, com uma rede nacional que cobre todas as províncias do país, cerca de 200 técnicos no terreno, 15 delegações, 10 agências distritais e 12 incubadoras de start-ups (um total de 35 postos de finanças rurais) e capacidade de actuação em mais de 110 distritos.
Só entre 2020 e 2024, a Gapi concedeu créditos num valor total de 1,4 mil milhões de meticais, apoiando 2.642 micro, pequenas e médias empresas e contribuindo para a criação de mais de 10 mil empregos directos. Estes números, reconhecidos pelo Presidente da República Daniel Chapo no discurso de celebração do 35.º aniversário, reflectem décadas de aprendizagem metodológica — a convicção de que financiar sem acompanhar é insuficiente, e que a capacitação técnica é tão importante quanto o acesso ao crédito.
Em Março de 2025, o lançamento do Incubox II marcou uma nova fronteira na história da Gapi. Desenvolvido internamente pela equipa técnica da instituição e financiado pela União Europeia. O Incubox II é um programa de incubação de negócios em contentores modulares e móveis, instalado em 12 localizações nas províncias de Niassa, Nampula e Cabo Delgado. Durante 48 meses, o programa visa criar e formalizar 1.080 startups, promover 250 estágios profissionalizantes e garantir que 40% das empresas criadas sejam lideradas por mulheres. O facto de um programa concebido por técnicos moçambicanos ter sido aprovado e financiado pela União Europeia é, em si, um reconhecimento da maturidade e da credibilidade técnica da Gapi.
O olhar sobre o futuro: estratégia 2026-2030
Ao celebrar 36 anos, a Gapi não olha apenas para o caminho percorrido — olha, sobretudo, para o que falta fazer.
Está em fase conclusiva a proposta do Plano Estratégico 2026-2030 onde se definem as prioridades para o próximo ciclo de actuação da instituição: o apoio à agricultura e ao agronegócio, com foco na segurança alimentar e no acesso a novas tecnologias; o estímulo e a promoção do empreendedorismo jovem e feminino, numa altura em que mais de 500 mil jovens entram anualmente no mercado de trabalho; o reforço de uma metodologia de inclusão financeira com impacto produtivo e emprego, através do apoio a microbancos rurais e da digitalização dos serviços financeiros; e a promoção da formalização da economia informal, com especial atenção às comunidades suburbanas e rurais.
A digitalização surge como componente transversal: a Gapi reconhece que o telefone móvel é hoje a porta de entrada para os serviços financeiros de muitos moçambicanos, e assume o compromisso de integrar soluções digitais em todos os seus programas e metodologias.
O horizonte inclui também a abertura do capital da Gapi e a sua eventual inscrição na bolsa de valores — um sinal claro de ambição institucional e de aposta na transparência e na participação alargada de investidores que partilhem a visão de um desenvolvimento inclusivo e sustentável.
Uma instituição, uma convicção
Trinta e seis anos depois, permanece inalterada a convicção de partida, que esteve na origem da Gapi: que o crédito não é um privilégio, mas um instrumento de inclusão e uma oportunidade que precisa de ser promovida; que o empreendedorismo não se financia — acompanha-se; e que um Moçambique mais próspero só é possível se essa prosperidade chegar a todos, sem excepção.
Como afirmou Rafael Uaiene, Presidente do Conselho de Administração da Gapi, no 35.º aniversário: “O caminho da inclusão é longo, mas com perseverança e parcerias sólidas, estamos a construir um Moçambique melhor para todos, onde a prosperidade é um direito e não um privilégio.”
Essa convicção é a nossa história. E é o que nos guiará pelos próximos 36 anos.
Cronologia
| Ano | Marco |
| 1985 | Criação do Gabinete de Apoio e Consultoria a Pequenas Indústrias (GAPI), parceria entre o Governo de Moçambique e a Fundação Friedrich Ebert |
| 1990 | 1 de Março: início oficial de actividade como empresa nacional |
| 1999 | Transformação em sociedade anónima — Gapi, S.A. |
| 2000 | Participação no relançamento da indústria do caju, com o Fundo Africano de Desenvolvimento |
| 2000 | Gestão de linha de crédito para recuperação económica pós-cheias |
| 2002–2004 | Reinserção socioprofissional de ~12.000 trabalhadores dos CFM — considerado um dos processos mais bem-sucedidos em África |
| 2007 | Registo no Banco de Moçambique como Sociedade de Investimentos — Gapi-SI, S.A. |
| 2013 | Reconfiguração da estrutura acionista com entrada de investidores privados nacionais |
| 2020–2024 | 1,4 mil milhões de meticais em crédito concedido; 2.642 MPMEs apoiadas; +10 mil empregos directos gerados |
| 2025 | Celebração do 35.º aniversário; lançamento do Incubox II nas províncias do Norte |
| 2026 | Actualização da estratégia quinquenal em resposta à nova conjuntura nacional e mundial |