Filomena: A Coragem de Recomeçar após acções terroristas em Cabo Delgado

Em Abril de 2020, Filomena José viu-se obrigada a abandonar tudo o que conhecia. Natural de Muidumbe, fugiu do conflito armado levando consigo apenas o mais importante: os seus três filhos e a mãe. Como milhares de outras famílias de Cabo Delgado, procurou refúgio em Pemba, onde passou a viver em casa da irmã, carregando consigo a incerteza sobre o futuro.

Aos 35 anos, Filomena sabia que depender da ajuda dos outros não podia ser um projecto de vida. Meses depois, decidiu mudar-se para a comunidade de Namiture, no distrito de Metuge. Sem emprego, encontrou na agricultura a única oportunidade para reconstruir a vida da família. Uma vizinha emprestou-lhe um hectare e meio de terra. Ali voltou a fazer aquilo que aprendera desde criança: cultivar milho.

A colheita foi suficiente para alimentar a família, mas não para mudar a sua realidade. Continuava a produzir como sempre produzira. Semeava sem alinhamento, sem respeitar o compasso entre as plantas, enfrentava perdas causadas por pragas e dependia de produtos químicos caros para proteger a produção. O milho era praticamente a sua única fonte de alimento e rendimento, tornando a família vulnerável a qualquer adversidade.

Durante muito tempo, Filomena acreditou que aquele era o único caminho possível. Tudo começou a mudar em 2024, quando integrou o Projecto AgroVida, implementado pela Gapi – Sociedade de Investimentos, S.A., em parceria com a Fundação Aga Khan e financiado pelo Reino dos Países Baixos e pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

Mais do que uma produtora, o projecto viu nela uma mulher com potencial para reconstruir a própria vida. Na “Escola Machamba do Camponês”, Filomena aprendeu técnicas de agricultura regenerativa que nunca tinha imaginado utilizar. Descobriu a importância da sementeira em linha, do uso correcto do compasso, da consociação de culturas, da produção de adubo orgânico e de bio pesticidas naturais, reduzindo drasticamente os custos e protegendo a fertilidade do solo.

Mas o AgroVida não transformou apenas a sua machamba. Transformou a forma como Filomena passou a olhar para si própria. Nos treinamentos de empoderamento económico, aprendeu que produzir era apenas uma parte do negócio. Era preciso planificar, calcular custos, registar receitas e despesas, identificar mercados e investir com inteligência.

Foi durante uma dessas formações que percebeu que o negócio que procurava não estava longe de casa. Inicialmente, pensou em viajar para Nampula para comprar capulanas ou atravessar a fronteira para a Tanzânia à procura de cosméticos para revenda. Pareciam boas ideias. Contudo, ao elaborar o seu primeiro plano de negócios com o apoio dos técnicos do projecto, concluiu que poderia criar uma actividade muito mais rentável utilizando os recursos disponíveis na própria comunidade.

Foi assim que decidiu investir na criação de frangos de corte. Começou com um investimento de cerca de 30 mil meticais e dois lotes de 200 pintos. Hoje, produz quatro lotes por ciclo e fornece regularmente famílias da comunidade, o Centro de Saúde de Naminawe e restaurantes locais, com quem mantém um contrato de fornecimento semanal.

Os rendimentos permitiram melhorar a alimentação da casa, investir novamente na produção agrícola, adquirir um painel solar e, acima de tudo, garantir a continuidade dos estudos dos seus três filhos, que frequentam diferentes níveis de ensino na cidade de Pemba.

Em apenas uma campanha agrícola, a produção de milho aumentou de 300 para 400 quilogramas. A produção de gergelim duplicou, passando para 400 quilogramas. Pela primeira vez, Filomena diversificou a produção com feijão-nhemba e feijão-boer, vendendo parte da colheita e reservando outra para reforçar a segurança alimentar da família.

Hoje, quando olha para trás, Filomena percebe que a maior mudança não está apenas nos números da produção ou nas vendas do seu negócio. Está na confiança que conquistou.

Já não depende apenas da experiência herdada. Toma decisões com base no conhecimento. Mantém registos financeiros, elabora planos de negócio, emprega um trabalhador para apoiar a criação de frangos e prepara-se para adquirir a sua própria machamba.

“Eu saí de casa sem saber quase nada. Hoje sei produzir adubo, biopesticidas, fazer sementeira em linha, elaborar um plano de negócio, controlar o dinheiro que entra e o que sai. Até já consegui contratar um trabalhador. Agora acredito que posso crescer ainda mais.”

A história de Filomena demonstra que reconstruir uma vida vai muito além de recuperar o que se perdeu. Significa criar novas oportunidades, descobrir novas capacidades e voltar a acreditar no futuro.

É esse o impacto que a Gapi, em parceria com a Fundação Aga Khan e com o apoio do Reino dos Países Baixos, continua a gerar em Cabo Delgado: transformar conhecimento em oportunidades, financiamento em autonomia e pessoas vulneráveis em protagonistas do seu próprio desenvolvimento.

Porque o verdadeiro sucesso não se mede apenas pelas toneladas produzidas ou pelos negócios criados. Mede-se pela coragem de quem encontrou forças para recomeçar e, com o apoio certo, transformou a adversidade numa história de esperança, dignidade e prosperidade.

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